Excesso de telas – Uma análise publicada pela The Lancet relacionou o uso recreativo prolongado de dispositivos digitais a problemas de saúde entre crianças e adolescentes. O levantamento reuniu dados de aproximadamente 9 milhões de pessoas de zero a 24 anos.
Segundo os pesquisadores, cerca de 20% dos casos de depressão entre jovens poderiam estar associados à exposição recreativa a telas por mais de duas horas diárias. Para a obesidade, a estimativa é de 15%.
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Os autores ressaltam, porém, que os resultados indicam associação e não comprovam que o uso de telas seja a causa direta das doenças.
A pesquisa revisou 121 estudos, que reuniam 2.790 pesquisas primárias. A partir desse conjunto de dados, os pesquisadores defendem que o ambiente digital seja considerado um novo determinante estrutural da saúde, ao lado de fatores como renda, educação, condições de moradia e local de residência.
A justificativa é que a tecnologia passou a integrar atividades cotidianas de crianças e adolescentes. Redes sociais, videogames, vídeos, mensagens, smartphones e ferramentas de inteligência artificial estão presentes em momentos de estudo, lazer, descanso e interação social.
Relação entre telas e depressão é complexa
A estimativa de que um em cada cinco casos de depressão possa estar associado ao excesso de telas precisa ser interpretada com cautela. Jovens que passam muito tempo conectados podem desenvolver problemas emocionais relacionados a esse comportamento, mas também é possível que pessoas com depressão, ansiedade, solidão ou dificuldades sociais recorram mais ao ambiente digital.
Os estudos populacionais ainda não conseguem separar completamente essas possibilidades.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que o impacto não depende apenas da quantidade de horas diante da tela. Duas horas conversando com amigos, estudando ou assistindo a um filme podem ter efeitos diferentes de duas horas navegando compulsivamente pelas redes sociais durante a madrugada.
Por isso, a análise utiliza o conceito de “uso problemático de meios digitais”, em vez de estabelecer um limite universal de horas considerado perigoso.
Uma pesquisa publicada em 2026 na Frontiers in Public Health, com mais de 103 mil adolescentes chineses, também encontrou associação positiva entre dependência de celular e sintomas depressivos. O ambiente familiar, entretanto, modificava significativamente essa relação.
Sono e atividade física também entram na análise
Além da depressão e da obesidade, a revisão encontrou associações entre o uso problemático de meios digitais, alterações do sono, problemas de saúde mental e menor atividade física.
Os fatores podem se reforçar. Permanecer conectado até tarde pode reduzir o sono, enquanto dormir menos pode prejudicar o humor e a concentração. O tempo prolongado sentado também pode substituir atividades físicas.
A tecnologia, por outro lado, não é apontada apenas como um fator de risco. Comunidades online podem oferecer apoio social a jovens isolados, videogames podem estimular determinadas formas de interação e ferramentas digitais podem ampliar o acesso à educação e a informações de saúde.
Os pesquisadores estimam que, globalmente, a relação analisada poderia representar cerca de 2,8 milhões de anos de vida saudável perdidos anualmente em razão da depressão e outros 240 mil relacionados à obesidade.
Para os autores, a discussão deve ir além de quantas horas crianças e adolescentes passam diante das telas. Como o ambiente digital se tornou parte estrutural da vida cotidiana, também é necessário avaliar o que os jovens fazem nesses espaços e como as plataformas são projetadas.
A dificuldade é agravada pelo acesso limitado de pesquisadores independentes aos dados mantidos pelas plataformas, que possuem informações detalhadas sobre o comportamento dos usuários. Isso dificulta identificar quais características desses serviços oferecem riscos e quais podem produzir benefícios.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific)