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Deletar seus dados nem sempre significa apagá-los: entenda

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Deletar seus dados – “Deletar” faz parte da rotina digital. Todos os dias, usuários enviam arquivos para a lixeira, removem documentos de seus dispositivos e encerram contas em serviços que já não utilizam. Mas o que ocorre, de fato, depois que o botão “deletar” é acionado? O processo de exclusão nem sempre é explicado de maneira clara pelas empresas de tecnologia. Pesquisas frequentemente apontam problemas como a falta de transparência sobre o tratamento das solicitações e a ausência de uma confirmação objetiva de que os dados foram efetivamente eliminados.

A questão vai além dos sistemas operacionais. Redes sociais e diferentes tipos de serviços por assinatura também podem apresentar mecanismos de exclusão pouco transparentes. Essa falta de clareza pode trazer consequências relevantes para os usuários, principalmente em relação à privacidade e à segurança das informações armazenadas.

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Outro fator que complica o cenário é o receio de apagar dados por engano. Algumas pessoas desenvolvem grande ansiedade diante da possibilidade de perder arquivos, fotografias, vídeos ou outros conteúdos pessoais, comportamento que já foi associado ao termo “diagrafofobia”. Embora a expressão não represente uma condição médica reconhecida, pesquisas sobre acumulação digital indicam que há usuários especialmente preocupados com a perda acidental de informações, como músicas e fotos.

Esse medo contribui para o acúmulo de grandes volumes de dados pessoais que permanecem armazenados mesmo sem serem utilizados. Dessa forma, informações esquecidas continuam disponíveis e podem ficar sujeitas a acessos indevidos.

Deletar x apagar

Um dos principais erros de interpretação é considerar que “deletar” e “apagar” são exatamente a mesma coisa. A lógica de que um arquivo deixou de aparecer na tela e, portanto, desapareceu definitivamente não corresponde necessariamente ao funcionamento dos sistemas digitais.

Quando um arquivo é deletado — primeiro enviado para a lixeira e depois removido de forma permanente —, seu conteúdo geralmente não é destruído imediatamente. O sistema costuma identificar aquele espaço de armazenamento como disponível para novos dados e modificar os metadados responsáveis por associar o arquivo àquele local. O conteúdo original, entretanto, pode continuar presente e ser recuperado por ferramentas específicas, principalmente quando existem cópias em outros dispositivos ou sistemas.

Existem métodos mais rigorosos para eliminar informações. Entre eles estão a destruição física do dispositivo de armazenamento, a sobrescrita dos blocos de memória por novos dados e a criptografia acompanhada da destruição da chave utilizada para acessar as informações.

Essas alternativas, porém, apresentam limitações. Além de poderem ter custos elevados, algumas delas podem inutilizar o dispositivo, como ocorre em determinados processos de sobrescrita de mídias magnéticas. Em ambientes de computação em nuvem, a própria estrutura distribuída dos serviços torna a eliminação completa ainda mais complexa.

O mesmo princípio pode ser observado nas redes sociais. Uma publicação removida de uma plataforma pública pode deixar rastros por meio de respostas, comentários, cópias ou outros registros disponíveis na internet. Assim, mesmo que um tuíte seja excluído, seu conteúdo ou contexto pode ser reconstruído a partir de menções e respostas que permaneceram disponíveis.

Contas “zumbis”

Também é comum acreditar que remover um aplicativo do celular elimina automaticamente a conta vinculada a ele. Na prática, isso geralmente não acontece.

Usuários podem abandonar perfis sem perceber que eles continuam ativos depois que o aplicativo correspondente foi desinstalado.

Essas são as chamadas contas “zumbis”: perfis que permanecem abandonados em diferentes tipos de serviços, incluindo plataformas de compras, armazenamento, relacionamento, finanças e streaming. Como continuam contendo informações pessoais, milhões dessas contas podem representar potenciais alvos para ataques cibernéticos e vazamentos de dados.

O avanço acelerado da inteligência artificial acrescenta uma nova dificuldade ao problema. Surge a dúvida sobre a possibilidade de realmente excluir informações depois que elas já foram utilizadas no treinamento de modelos de IA. Sistemas de aprendizado de máquina podem memorizar dados presentes durante o treinamento, enquanto fazer com que esses sistemas “desaprendam” determinadas informações é uma tarefa consideravelmente mais difícil.

Na Europa e em diversos outros países, existe, em determinadas circunstâncias, o chamado “direito de ser esquecido”. A legislação permite que indivíduos solicitem a remoção de seus dados pessoais mantidos por empresas e plataformas. No âmbito do Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia, desenvolvedores de IA podem ser enquadrados como controladores de dados e, portanto, estão sujeitos a determinadas obrigações relacionadas à proteção e à exclusão dessas informações.

O problema é que ainda não existem parâmetros técnicos suficientemente claros para determinar como uma solicitação de exclusão deve ser executada dentro de sistemas de inteligência artificial. Órgãos reguladores podem exigir a remoção dos dados, enquanto empresas do setor podem alegar que determinadas solicitações são tecnicamente inviáveis.

Exclusão explicável

Diante dos riscos associados a processos de exclusão incompletos, torna-se necessário oferecer aos usuários explicações mais objetivas, acessíveis e fáceis de compreender sobre o destino de seus dados depois de uma solicitação de exclusão.

Uma das possibilidades é a chamada “exclusão explicável”, protocolo desenvolvido por Marvin Ramokapane no Centro Nacional de Pesquisa sobre Privacidade, Redução de Danos e Influência Adversária On-line (Rephrain), da Universidade de Bristol, no Reino Unido.

A proposta busca tornar os procedimentos de exclusão mais transparentes sem exigir que o usuário receba uma quantidade excessiva de informações de uma só vez.

O modelo organiza as explicações em seis categorias: o quê, como, quando, quem, onde e por quê. Cada uma delas apresenta informações resumidas sobre uma etapa ou característica do processo de exclusão.

A ideia é permitir que o usuário tenha maior controle sobre suas decisões, possa escolher o método de exclusão mais adequado e receba uma confirmação de que a ação solicitada foi realmente executada. O sistema também pode reduzir o receio de apagar informações importantes por acidente ao apresentar alternativas de recuperação.

Embora a exclusão explicável ainda não tenha sido incorporada amplamente aos serviços digitais, sua adoção por plataformas e desenvolvedores poderia aumentar a confiança dos usuários. O modelo também poderia funcionar como mecanismo de demonstração de conformidade com as regras do GDPR da União Europeia e com o chamado direito ao esquecimento.

A maioria das pessoas utiliza diariamente serviços que coletam, processam e armazenam informações pessoais. Se essas plataformas deixassem mais claro quais dados mantêm e o que realmente acontece quando o usuário escolhe excluí-los, seria mais fácil identificar contas e informações que representam riscos e, consequentemente, recuperar parte do controle sobre a própria pegada digital.

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(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Magnific/Omari fx)

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