Golpe – Promessas de contato com entes queridos mortos em poucas horas, mediante pagamento, colocaram sites que vendem cartas psicografadas no centro de denúncias de fraude. Plataformas como Chamado Espiritual e Carta Viva anunciam uma suposta comunicação espiritual por valores que chegam a R$ 89,90, mas acumulam queixas de consumidores e utilizam imagens de pessoas que não atuam como médiuns.
Os sites apresentam estrutura semelhante e conduzem o usuário a um formulário com informações detalhadas sobre a pessoa falecida, como nome, grau de parentesco, data e causa da morte, além de dados pessoais da trajetória de vida. Após o preenchimento, é possível escolher entre supostos médiuns disponíveis para realizar o “trabalho espiritual”.
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Um dos nomes apresentados é o de Anderlino, descrito como médium experiente, com milhares de cartas psicografadas. A imagem, no entanto, pertence a Arthur Bugre, consultor e palestrante mineiro, que registrou boletim de ocorrência em fevereiro de 2025 após descobrir o uso indevido de sua foto e de informações falsas associadas ao seu nome.
Bugre afirma não ter qualquer vínculo com a prática mediúnica nem com a comercialização de cartas psicografadas. Segundo ele, tentou contato com os responsáveis pelas plataformas para retirada do conteúdo, mas não obteve resposta. A Polícia Civil de Minas Gerais confirmou o registro da ocorrência e informou que a abertura de inquérito depende de representação formal da vítima.
Outro caso envolve a nutricionista Orleide Felix de Matos, cuja imagem aparece nos sites vinculada à identidade de “Médium Dona Benta”. Em publicação nas redes sociais, ela declarou que também registrou queixa policial e reforçou que, de acordo com os princípios espíritas, a mediunidade não deve ser exercida mediante cobrança.
Além da taxa principal, os sites oferecem pacotes com prazos variados e cobranças adicionais por serviços como leitura em áudio da carta, mensagens extras e até opções descritas como reconexão espiritual. Os valores variam entre R$ 39,90 e R$ 89,90.
No Reclame Aqui, consumidores de diferentes estados relatam não ter recebido resposta após o pagamento ou descrevem cartas com conteúdo genérico, supostamente produzido com auxílio de inteligência artificial. Há registros de pessoas que afirmam ter investido os últimos recursos financeiros na tentativa de obter conforto emocional durante o luto.
As plataformas informam, em letras pequenas no rodapé, que os serviços têm finalidade apenas de entretenimento e reflexão espiritual, sem garantia de resultados. Para o advogado criminalista Jaime Fusco, esse aviso não afasta possíveis responsabilizações, incluindo estelionato religioso, infrações ao Código de Defesa do Consumidor e publicidade enganosa.
Outro site que oferece cartas psicografadas é o Canto do Céu, que também acumula reclamações semelhantes. Em comum, os relatos apontam ausência de retorno, atrasos prolongados e exploração emocional de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Os pagamentos são intermediados por empresas como Perfect Pay e Kirvano. A Perfect Pay informou atuar apenas como plataforma de pagamentos, sem controle sobre o conteúdo dos produtos vendidos. Segundo Fusco, caso as irregularidades sejam comprovadas, as intermediadoras também podem ser acionadas judicialmente por se beneficiarem das transações.
Fora das plataformas, vítimas relatam abordagens diretas feitas por pessoas que se apresentam como médiuns nas redes sociais. Uma das denunciantes, Bruna Tatieli Xavier, do Paraná, afirma ter sido enganada após buscar respostas durante o luto pelo assassinato do pai de seu filho. Segundo ela, após pagar valores considerados “simbólicos” e questionar a demora, acabou bloqueada.
Para representantes do espiritismo, a prática fere princípios básicos da doutrina. O vice-presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), Carlos Campetti, afirma que a psicografia não pode ser encomendada nem comercializada. Segundo ele, o contato espiritual ocorre de forma espontânea e não depende da vontade do médium ou de pagamento.
Apesar dos golpes relatados, médiuns que atuam de forma voluntária e gratuita reforçam que a mediunidade é um trabalho de acolhimento, sem garantias, prazos ou qualquer tipo de cobrança financeira.
(Com informações de O Globo)
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