Ozempic – A proteção patentária da semaglutida – substância usada no Ozempic – termina no Brasil em 20 de março. A partir dessa data, outras farmacêuticas passam a ter autorização para fabricar medicamentos semelhantes. Apesar da expectativa de maior concorrência e de preços menores, especialistas e empresas do setor indicam que as primeiras canetas produzidas no país devem aparecer nas farmácias apenas no segundo semestre.
A demora está relacionada a uma série de fatores, que incluem exigências regulatórias, desafios industriais e estratégias comerciais. Entre os principais pontos estão a análise de registros pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a complexidade da produção do medicamento e as ações da Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, para manter sua posição no mercado brasileiro – atualmente o oitavo maior da empresa no mundo.
LEIA: Chatbots de IA dão dicas de armas e ajudam a planejar ataques violentos
Analistas consultados pela BBC News Brasil afirmam que, mesmo com o fim da patente, a entrada de concorrentes deve ocorrer de forma gradual. Com poucos fabricantes no início, a tendência é que os preços não recuem de forma expressiva no curto prazo.
Aprovação regulatória ainda está em andamento
Um dos principais obstáculos para a chegada de novas versões do medicamento é a autorização da Anvisa. No momento, 14 solicitações para produção da semaglutida estão sendo analisadas pela agência.
A expectativa é de que as primeiras liberações ocorram nas próximas semanas. Ainda assim, o processo deve avançar lentamente: a Anvisa planeja conceder até três registros por semestre, o que pode fazer com que a avaliação de todos os pedidos se estenda até 2028.
A farmacêutica EMS, considerada uma das candidatas a obter autorização primeiro, calcula que suas canetas só poderão ser lançadas cerca de três meses após a concessão do registro.
Marcus Sanchez, vice-presidente da companhia, afirmou à BBC News Brasil que o processo exige tempo mesmo após o fim da patente. “Um medicamento de menor complexidade poderíamos colocar no mercado em 30 ou 45 dias após a queda de patente, mas este a gente acredita que em menos de 90 dias não é possível.”
Relatório do Itaú BBA estima que os primeiros produtos brasileiros baseados em semaglutida possam chegar ao mercado apenas em agosto.
Medicamentos similares limitam desconto inicial
Outro fator que deve reduzir o impacto imediato nos preços é a classificação das novas versões do medicamento. Grande parte dos produtos brasileiros deve ser registrada como medicamento similar, e não como genérico.
A diferença é relevante para o consumidor. Enquanto os genéricos precisam apresentar ao menos 35% de desconto em relação ao medicamento de referência, os similares podem ter redução mínima em torno de 20%.
Atualmente, o preço de tabela do Ozempic é de R$ 1.299,70. Nesse caso, versões similares poderiam começar a ser vendidas a partir de cerca de R$ 1.039,76.
Na prática, porém, o valor nas farmácias costuma variar devido a políticas próprias de desconto. Hoje, a caneta da Novo Nordisk já pode ser encontrada por aproximadamente R$ 999 em algumas redes.
Segundo estudo do Itaú BBA, a redução média de preços pode alcançar 50% em cinco anos. No início, no entanto, a queda deve ficar abaixo de 30%, com valores próximos de R$ 900.
Produção exige investimentos elevados
A fabricação das chamadas canetas emagrecedoras também representa um desafio técnico. Diferentemente de comprimidos ou cápsulas, medicamentos injetáveis exigem estruturas industriais altamente especializadas, além de rigorosos controles de esterilidade e monitoramento microbiológico.
O transporte também requer cuidados específicos, já que o produto precisa permanecer sob refrigeração constante durante toda a cadeia logística.
Entre as empresas brasileiras com estrutura para esse tipo de produção estão EMS e Biomm. A EMS informa ter investido R$ 1,2 bilhão na construção de uma fábrica em Hortolândia (SP).
A Novo Nordisk também pretende ampliar sua presença no Brasil e está construindo uma nova unidade em Montes Claros (MG), com investimento estimado em R$ 6,4 bilhões. A planta ainda não produz canetas voltadas para emagrecimento.
Concorrência deve crescer de forma gradual
Apesar do interesse de diversos laboratórios nacionais, apenas alguns devem conseguir produzir o medicamento no curto prazo. Algumas empresas optaram por firmar parcerias com farmacêuticas estrangeiras, principalmente asiáticas, para importar ou terceirizar a fabricação.
Outras decidiram abandonar a disputa. Foi o caso da Eurofarma, que desistiu do projeto após firmar acordo com a Novo Nordisk para distribuir medicamentos da companhia no Brasil.
Ao mesmo tempo, o mercado enfrenta a chegada de novos concorrentes terapêuticos. O Mounjaro, da Eli Lilly, já superou em vendas os medicamentos baseados em semaglutida em janeiro, segundo dados da consultoria Close-Up.
Mercado bilionário continua em expansão
Mesmo com os desafios regulatórios e industriais, o mercado das chamadas canetas emagrecedoras segue em rápida expansão no país.
Em 2025, o faturamento do setor dobrou e alcançou cerca de R$ 12 bilhões no Brasil. Dados da consultoria Close-Up mostram que apenas em janeiro de 2026 as vendas cresceram 34% em relação à média mensal do ano anterior.
Projeções do Itaú BBA indicam que o mercado pode atingir R$ 24,6 bilhões já em 2026 e chegar a R$ 50,8 bilhões até 2030, impulsionado tanto pelo uso no tratamento da obesidade quanto em outras aplicações médicas.
(Com informações de Olhar Digital)
(Foto: Reprodução/Freepik)