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Programação, dados de clientes e PDFs: como funcionava a ‘linha de montagem’ de fraudes do Banco Master

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Banco Master – O que parecia ser uma coleção de contratos e documentos de operações de crédito escondia, segundo a Polícia Federal, uma produção documental em escala. Dados de clientes que haviam realizado operações reais foram retirados dos sistemas do Banco Master e utilizados como base para gerar novas peças. Procurações foram produzidas em lote, páginas de assinaturas foram isoladas por meio de códigos e arquivos PDF passaram por alterações antes de serem reunidos em dossiês.

A estrutura foi identificada pela perícia da PF durante a investigação sobre as operações de créditos consignados atribuídas à Tirreno Consultoria e posteriormente negociadas com o Banco de Brasília (BRB).

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A empresa, segundo a Polícia Federal, funcionava sem sede nem funcionários e havia sido criada com apenas R$ 100 de capital social. A investigação aponta que a Tirreno foi usada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master, que utilizou essas carteiras sem lastro para vendê-las ao BRB.

O material que permitiu reconstruir parte do funcionamento da operação estava dentro do próprio banco. Uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia, intitulada “Investigações internas – Banco Master”, tinha 30 slides e registrava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 relacionadas à produção de documentos para as operações.

Mais do que arquivos falsos isolados, a documentação analisada pela PF revela um processo dividido entre diferentes funcionários e ferramentas. O trabalho envolvia desde consultas a bancos de dados até edição de documentos, assinatura digital e montagem dos arquivos que seriam apresentados como comprovação das operações.

Dados de clientes viraram matéria-prima

A primeira camada desse processo era formada por informações verdadeiras.

Em 2 de julho de 2025, às 14h05, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, um levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams.

Vinicius reuniu os números no arquivo cpf_cessao.csv. No dia seguinte, executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno do banco. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx e enviado por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho, às 16h57.

A base continha nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe dos clientes. Entre os dados consultados estavam informações relacionadas ao CredCesta, produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

A própria equipe de tecnologia, porém, identificou problemas na seleção.

Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados. Rafael apontou que havia um CPF relacionado a apenas uma proposta de 2019 e afirmou que a lista estava “meio furada”.

Thiago Ramalho: “filtrando formalizacao só tem 328 credcesta-refin…. nao deveria ser a maioria”.

Rafael Manfrin: “ai deu merda então / pq tem um cpf nesse meio aqui que so teve 1 proposta em 2019 / ta meio furado essa lista ai”.

Para a PF, esses dados foram o ponto de partida para a produção da documentação que sustentaria as operações.

Word foi usado para produzir milhares de procurações

Com a base organizada, a quantidade de documentos deixou de ser um obstáculo. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word para preencher automaticamente um modelo a partir de uma planilha.

O arquivo PROCURACAO Master.docx foi vinculado à Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras.

O resultado foi a produção de 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025.

A ferramenta utilizada era comum em tarefas de escritório, mas, naquele contexto, permitia aplicar automaticamente os dados de uma base a centenas ou milhares de documentos.

A operação também exigia reproduzir assinaturas e outros elementos presentes nas peças originais.

Programas em C# separavam as assinaturas

A área de tecnologia participou diretamente dessa etapa.

Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram do desenvolvimento de aplicações em C# registradas no GitHub do Banco Master. Uma das funções identificadas pela perícia conseguia extrair de um PDF somente a segunda página, correspondente à página de assinatura dos documentos originais.

A investigação encontrou ainda um arquivo chamado erros-whatsapp.zip. Enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, o arquivo reunia 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento.

Na prática, as assinaturas podiam ser retiradas de documentos existentes e posteriormente reaproveitadas na montagem de novos conjuntos.

O procedimento também envolveu as Cédulas de Crédito Bancário. Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust, identificados pela raiz CCB_credcesta_….

Em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa pelo Teams para a assinatura dos arquivos. Foram distribuídos 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.

As assinaturas foram realizadas pelo Adobe Acrobat Reader, utilizando o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado.

Foi nesse procedimento que a perícia encontrou um dos principais indícios de que a documentação havia sido produzida posteriormente às datas apresentadas.

Em determinados arquivos, a CCB trazia no próprio documento uma data anterior, como 21 de janeiro de 2025. O registro criptográfico da assinatura, entretanto, indicava que o arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

A assinatura digital, portanto, preservou uma informação que a alteração visual dos documentos não conseguiu eliminar: o momento em que o arquivo havia sido efetivamente assinado.

Funcionários tentaram retirar as datas

Os Termos de Consentimento também passaram por alterações. Em uma conversa no Teams de 20 de junho, Allan Machado pediu a Moacir Lourenço da Silva Junior que retirasse as informações de data e hora. A orientação foi registrada nas mensagens:

Allan da Silva Machado: “e o termo de consentimento”.

Allan da Silva Machado: “e precisamos excluir a data”.

A perícia encontrou um exemplo no documento de Genilson Lima Leal. O Termo de Consentimento apresentava originalmente o registro 24/02/2023 13:05. Em 3 de julho de 2025, às 15h26, a informação foi apagada visualmente.

A remoção, contudo, não eliminou todos os vestígios. Registros presentes no arquivo e os dados associados à assinatura digital permitiram à perícia reconstruir a cronologia.

Um caso semelhante foi identificado em documentos cujas datas escritas indicavam períodos anteriores, mas cujos registros digitais mostravam que as assinaturas haviam sido realizadas somente em junho de 2025.

O PDF final escondia a origem das peças

Depois das etapas individuais, os documentos precisavam parecer parte de uma mesma operação.

Allan utilizou o PDF24 para combinar CCBs, procurações e Termos de Consentimento em arquivos únicos. Os documentos já modificados eram, assim, reunidos em dossiês.

Os arquivos foram organizados em pastas de rede com nomes como Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras.

O resultado era um conjunto que reunia, em um mesmo PDF, diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente.

Comprovantes de transferência criaram outro problema

O mesmo esforço para eliminar referências às operações originais chegou aos comprovantes bancários.

Em 25 de junho de 2025, Allan Machado e Romy Goerck Gentina Klenquen discutiram a alteração de comprovantes de transferências feitas por SPB e PIX.

Allan queria remover três informações: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre os registros que apareciam no histórico estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.

O problema era a quantidade.

Romy explicou que conseguia modificar um ou outro comprovante, mas não realizar manualmente o mesmo procedimento em 2.700 arquivos.

Allan da Silva Machado: “nao da para aparecer o evento”.

Romy Klenquen: “entao esse é o melhor”.

Allan da Silva Machado: “porra… este aparece o numero de contrato… nao quero o numero de contrato nem o histórico”.

Romy Klenquen: “entao nao tem oq fazer / um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes no editor”.

Allan da Silva Machado: “tem q dar um jeito”.

A dificuldade mostra uma diferença dentro do próprio processo: enquanto algumas etapas podiam ser automatizadas e reproduzidas em milhares de documentos, determinados elementos gráficos exigiam alterações individuais.

A preocupação chegou à auditoria

A produção dos documentos não era a única preocupação registrada nas mensagens. A investigação também encontrou conversas sobre como explicar eventuais inconsistências.

Em 23 de junho, Fabrizio informou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações. Alberto respondeu:

Alberto Felix de Oliveira Neto: “esse tem que falar que foi erro operacional na selecao”.

Dois dias antes, os dois haviam conversado sobre o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025.

Fabrizio disse que a base já havia sido enviada, mas apresentava um erro que precisaria ser corrigido. Alberto perguntou quais documentos seriam solicitados pela auditoria, e Fabrizio respondeu que seriam CCBs e termos.

Um “kit dos 300” chegou a Daniel Vorcaro

A documentação produzida também chegou ao proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Em 12 de junho de 2025, Vorcaro pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.

Alberto respondeu que providenciaria. Pouco depois, informou que tinha naquele momento acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura. Na sequência, foram enviados arquivos com o conjunto de documentos.

A investigação, portanto, identificou que as peças produzidas na operação não permaneciam apenas entre os funcionários envolvidos diretamente na montagem.

Quem participou da produção

A PF relacionou diferentes funcionários a etapas específicas do processo.

Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, distribuía tarefas, coordenava a produção e assinatura dos documentos e tratava das questões levantadas pela Deloitte.

Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office Conciliação, produziu as 2.700 procurações, pediu a retirada das datas, reuniu documentos em PDFs e participou das discussões sobre os comprovantes bancários.

Na área de TI, Vinicius Lucas Trentino ficou responsável pela extração de CPFs e outros dados dos sistemas internos. Thiago Ramalho participou do desenvolvimento dos códigos para extração de páginas de assinatura. Rafael Manfrin da Silva participou das consultas e rotinas usadas na produção dos documentos e identificou inconsistências na base. Renato M. também aparece relacionado aos aplicativos desenvolvidos para manipulação dos PDFs.

Moacir Lourenço da Silva Junior recebeu arquivos com páginas de assinatura e foi acionado para retirar visualmente datas e horários. Anderson Juliano Caspinelli Garcia enviou o arquivo com 1.833 PDFs de páginas de assinatura.

Romy Goerck Gentina Klenquen discutiu com Allan maneiras de alterar comprovantes de transferência em escala. Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva participaram da extração das CCBs. Daniel Guscuma recebeu, junto a outros funcionários, uma parte das CCBs que seriam assinadas.

Alberto Felix de Oliveira Neto aparece na investigação como diretor que fazia a supervisão, mantinha contato com Vorcaro e tratava das demandas da auditoria da Deloitte.

A tecnologia deixou os próprios vestígios da operação

A investigação mostra que a produção dos documentos dependia de uma combinação de recursos relativamente simples.

Consultas a bancos de dados forneceram informações de clientes. O Excel organizou os dados. A mala direta do Word permitiu produzir milhares de procurações. Aplicações desenvolvidas em C# trataram os PDFs e separaram páginas de assinatura. O Adobe Acrobat foi utilizado nas assinaturas digitais. O PDF24 reuniu os documentos em arquivos únicos.

O objetivo, segundo o material pericial, era sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno Consultoria.

Mas a mesma infraestrutura digital utilizada para produzir e modificar os arquivos também preservou informações que permitiram à perícia identificar inconsistências.

As datas escritas nos documentos não coincidiam, em alguns casos, com os registros criptográficos das assinaturas. Informações apagadas visualmente ainda podiam ser reconstruídas a partir de outros elementos dos arquivos.

Assim, segundo a investigação, a operação tinha duas frentes simultâneas: produzir uma documentação capaz de sustentar a aparência de legitimidade das operações e retirar dos arquivos elementos que pudessem revelar sua verdadeira origem.

O resultado foi uma cadeia que começava em dados de operações reais, passava pela produção e alteração de documentos e terminava em dossiês apresentados como comprovação de créditos. E, apesar das tentativas de apagar as marcas dessa produção, parte do caminho permaneceu registrada nos próprios arquivos digitais.

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(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Rovena Rosa/Agência Brasil)

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