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Tecnologia desenvolvida em MS usa a luz para analisar eucaliptos

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Analisar eucaliptos – Uma escolha feita no viveiro pode levar anos para mostrar se deu certo. Na produção de eucalipto, identificar incorretamente um material genético ou utilizá-lo em uma região onde seu desempenho não é o esperado pode significar perda de produtividade depois que grandes áreas já foram plantadas e recursos como água, solo e insumos foram empregados.

Para tentar antecipar esse tipo de problema, pesquisadores de Mato Grosso do Sul desenvolveram o PlantSpec, uma plataforma que utiliza a resposta das plantas à luz para identificar materiais clonais de eucalipto. A tecnologia combina espectroscopia, processamento de sinais e inteligência artificial para transformar medições complexas em informações que possam ser utilizadas na operação florestal.

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O projeto é conduzido por Edson Antonio Batista e Jader Lucas Perez, pesquisadores da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia (Faeng) e fundadores da Damine Tecnologia, startup acelerada no HUB Pantanal Inovação e Modelagem Empreendedora (Pime) da UFMS.

A solução ficou em segundo lugar no Desafio Pantanal Tech de Inovação 2026. O resultado foi, para os pesquisadores, uma validação do caminho entre a pesquisa acadêmica e o desenvolvimento de uma tecnologia comercial.

“É uma validação da trajetória que estamos construindo para transformar conhecimento científico em uma tecnologia com aplicação real. O segundo lugar fortalece a equipe, aumenta a visibilidade do PlantSpec e nos incentiva a avançar nas próximas etapas de amadurecimento tecnológico e inserção da solução no mercado”, destacam.

Da folha para a inteligência artificial

O PlantSpec surgiu a partir de uma demanda da Suzano, que procurava uma maneira rápida de identificar materiais clonais de eucalipto em ambientes operacionais, como os viveiros. A partir do desafio, a Damine reuniu conhecimentos desenvolvidos nas áreas de sistemas embarcados, inteligência artificial, espectroscopia e processamento de sinais.

“A Damine foi então contratada pela Suzano para desenvolver um Produto Mínimo Viável (MVP) da tecnologia e, desde então, a parceria evoluiu por meio de novos contratos de desenvolvimento tecnológico, chegando ao protótipo funcional atual”, lembram.

O funcionamento do equipamento parte da interação entre a luz e a folha. Durante a análise, uma folha de eucalipto recebe iluminação controlada e sua resposta é registrada em diferentes comprimentos de onda. Como parte da luz é absorvida e parte refletida, o resultado apresenta características que variam conforme aspectos físicos, químicos e biológicos da planta.

Essa resposta produz uma espécie de assinatura espectral. O PlantSpec utiliza algoritmos e modelos de inteligência artificial para reconhecer padrões nesse conjunto de dados e compará-los com uma biblioteca espectral proprietária criada durante o desenvolvimento.

“O espectro obtido de uma planta contém uma grande quantidade de informações, mas o dado bruto, isoladamente, tem pouco valor para uma operação industrial. O trabalho do PlantSpec está justamente em transformar esse conjunto complexo de dados em informação interpretável”, dizem Edson e Jader.

A plataforma pode apoiar a confirmação da identidade clonal e a rastreabilidade do material vegetal, relacionando os resultados aos registros de origem e produção das mudas.

Decidir antes que o problema apareça

A proposta ganha importância em um setor de grande escala. Somente em Mato Grosso do Sul, a Suzano mantém 457 mil hectares de plantações de eucalipto. As unidades de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo têm capacidade instalada para produzir 5,8 milhões de toneladas de celulose por ano. Em 2025, primeiro ano completo de operação da fábrica de Ribas do Rio Pardo, foram produzidas 2,58 milhões de toneladas.

“Em uma operação de milhões de mudas e extensas áreas de plantio, esse tipo de erro pode representar perdas econômicas muito relevantes para a indústria de papel e celulose”, explicam os pesquisadores.

A intenção é justamente reduzir o intervalo entre a obtenção da informação e a tomada de decisão. Com dados obtidos ainda nas primeiras fases de desenvolvimento das plantas, a tecnologia poderá futuramente auxiliar a seleção de materiais, o melhoramento genético, a implantação e o acompanhamento dos plantios.

“O grande potencial do PlantSpec está em permitir que a empresa obtenha informações sobre a planta muito antes de esperar anos para observar seu desempenho no campo”, ressaltam.

Além dos possíveis ganhos econômicos, a equipe prevê efeitos ambientais. A identificação antecipada de materiais inadequados pode evitar que recursos sejam utilizados durante anos em plantas que não apresentam o desempenho esperado.

“O benefício ambiental está muito associado a tomar decisões mais assertivas e mais cedo, evitando que recursos naturais sejam empregados durante anos em materiais inadequados e contribuindo para uma produção florestal mais eficiente e sustentável”, afirmam Edson e Jader.

Tecnologia já é testada em ambiente operacional

O PlantSpec está atualmente no nível TRL 5 de maturidade tecnológica. O protótipo funcional já foi testado em ambiente operacional representativo, incluindo viveiros e áreas de transição da Suzano.

A parceria com a empresa permite que os pesquisadores façam as validações com materiais genéticos de interesse industrial e sob condições reais de operação. O projeto também foi contemplado pelo Tecnova 3, que possibilitou ampliar o desenvolvimento da tecnologia.

Entre os próximos passos estão o aumento das bibliotecas espectrais, a realização de novas campanhas experimentais e o aprimoramento da robustez dos modelos de inteligência artificial.

A equipe também pretende incorporar novos biomarcadores espectrais para obter informações fisiológicas e fenotípicas. A capacidade desses indicadores de prever características das plantas ainda deverá ser validada experimentalmente.

A expectativa é chegar, em 2027, a uma versão preparada para iniciar a inserção comercial.

“Nossa expectativa é que, ao longo desse processo, possamos chegar em 2027 a uma versão do PlantSpec preparada para iniciar sua inserção comercial. A partir daí, a estratégia é ampliar gradualmente sua utilização no setor florestal e desenvolver novas aplicações para outras culturas e cadeias do agronegócio”, comentam Edson e Jader.

Pesquisa desenvolvida em Mato Grosso do Sul

Para os pesquisadores, o projeto também mostra o potencial de Mato Grosso do Sul para produzir tecnologias voltadas a uma indústria que cresce no próprio Estado.

“Mato Grosso do Sul tornou-se um dos principais polos mundiais da indústria de celulose e biomateriais, com operações florestais de enorme escala e investimentos crescentes. Isso cria uma oportunidade extraordinária para que o Estado não seja apenas produtor de celulose e biomateriais, mas também desenvolvedor das tecnologias utilizadas por essa nova indústria”, comentam.

A UFMS participou da formação das competências utilizadas no projeto por meio do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e do Laboratório de Sistemas Embarcados, da Faeng. A Agência de Inovação, especialmente o HUB Pime, também contribuiu para o amadurecimento da Damine como empresa de base tecnológica.

Para os fundadores, a experiência demonstra como a pesquisa universitária pode avançar até a criação de produtos e empresas.

“O PlantSpec representa um exemplo muito interessante desse ecossistema funcionando de forma integrada: a Universidade gera conhecimento e forma pessoas, seu ambiente de inovação estimula o empreendedorismo tecnológico, a empresa transforma esse conhecimento em produto e o setor produtivo apresenta problemas reais e participa da validação da solução”, destacam.

A meta de longo prazo é ampliar o uso da tecnologia para outros integrantes da cadeia florestal e, posteriormente, para outras culturas e cadeias do agronegócio.

“O objetivo de longo prazo é tornar a inteligência espectral acessível a diferentes usuários, e não restringi-la às grandes empresas”, contam.

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(Com informações de Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
(Foto: Reprodução/UFMS)

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