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IA começa a influenciar fala das pessoas no cotidiano, diz pesquisador

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IA – Não se trata apenas de uma ferramenta digital, mas de um estilo que se infiltra no cotidiano. Pesquisadores identificam que termos característicos da inteligência artificial estão passando para a vida fora das telas e, pela primeira vez, a língua humana parece não evoluir sozinha.

Por décadas, a linguagem foi vista como um domínio essencialmente humano. Esse entendimento, porém, começou a se alterar de forma quase imperceptível. Com a popularização de sistemas como o ChatGPT, não apenas recorremos a essas tecnologias: passamos a reproduzir seus padrões. Construções frasais, escolhas de palavras e até um certo “tom de voz” associado à IA começam a surgir em diálogos cotidianos. A consequência é uma questão incômoda: afinal, quem influencia quem?

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A interferência da inteligência artificial no idioma não acontece de maneira direta. Ninguém acorda decidindo “falar como um chatbot”. O movimento é gradual. Segundo linguistas, o contato frequente com textos produzidos por IA gera um efeito de acomodação: expressões e estruturas passam a soar normais simplesmente por serem vistas repetidas vezes.

Adam Aleksic, pesquisador da evolução da linguagem e criador do conceito de algospeak, define esse processo como um “simulacro de fala humana”. Os sistemas de IA não compreendem o mundo como as pessoas; eles convertem frases em modelos matemáticos simplificados, os chamados embeddings. Nesse caminho, perdem-se sutilezas, referências culturais e ambiguidades.

O resultado é que usuários começam a incorporar essa versão enxuta do idioma. Um caso citado em pesquisas recentes é o crescimento repentino do uso do termo delve no inglês acadêmico depois de 2022, período que coincide com a disseminação do ChatGPT. Não é um modismo passageiro, mas um comportamento mensurável.

Outras palavras seguem a mesma lógica: vocábulos neutros, objetivos e “limpos”, eficientes na forma, mas distantes emocionalmente. Com o tempo, o idioma tende à uniformidade, com menos marcas regionais, pausas naturais ou desvios criativos.

Da escrita às conversas do dia a dia

O fenômeno surgiu primeiro na escrita profissional e acadêmica, mas já extrapolou esse ambiente. Levantamentos recentes mostram que termos superpresentes em textos de IA começam a aparecer também na fala espontânea. A exposição contínua parece ajustar, pouco a pouco, o repertório mental das pessoas.

O próprio Aleksic relata ter notado essa mudança em si mesmo. Ele apreciava empregar certas palavras até perceber que soavam “artificiais demais”. Não por estarem incorretas, mas porque passaram a carregar uma marca implícita: a da linguagem de máquina.

A questão não está em um termo isolado, mas no conjunto. Palavras como inquiry, surpass ou meticulous repetem o mesmo padrão. Quando aparecem em excesso, a fronteira entre discurso humano e algorítmico começa a se diluir.

Forma-se então um movimento curioso: quanto mais usamos a IA, mais ela influencia nossa fala; quanto mais adotamos esse estilo, mais ele retorna para os próprios sistemas, que aprendem a partir de dados humanos. Um ciclo inédito na história da linguagem.

Um ciclo de retroalimentação

Esse processo cria um loop preocupante. A IA se alimenta da produção humana. Os humanos passam a imitar a IA. Esse novo “idioma híbrido” volta a treinar os modelos. Aos poucos, o repertório de significados compartilhado entre pessoas e máquinas começa a se embaralhar.

Isoladamente, não há problema em recorrer a termos técnicos ou precisos. A preocupação surge em outro nível. Se o fenômeno alcança o vocabulário, ele também pode influenciar formas de enquadrar a realidade, prioridades e até preconceitos.

Aleksic alerta que o mesmo mecanismo que padroniza palavras pode atuar, de maneira invisível, sobre percepções ligadas à política, à raça ou ao gênero. A linguagem não é neutra: ela orienta o pensamento. E, se o idioma perde diversidade e ambiguidade, o raciocínio pode seguir o mesmo rumo.

O debate, portanto, não é sobre saudosismo linguístico, mas sobre autonomia cultural. Pela primeira vez, a evolução da língua deixa de ser apenas social ou histórica ela se torna também algorítmica.

Talvez aí esteja a mudança mais profunda: não é a inteligência artificial que aprende a falar como nós. Somos nós que, aos poucos, estamos aprendendo a falar como ela.

(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Representação/Freepik/WangXiNa)

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