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Leão XIV questiona big techs e alerta para riscos sociais da IA em primeira encíclica

Líder da Igreja Católica manifestou preocupação com o avanço da IA, o domínio das plataformas digitais e os efeitos da tecnologia sobre a dignidade humana

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Leão XIV questiona big techs e alerta para riscos sociais da IA em primeira encíclica
Papa Leão XIV durante a homilia da sua inauguração papal (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Primeira encíclica – A primeira encíclica do Papa Leão XIV, divulgada na segunda-feira (25), tem como eixo principal os impactos da inteligência artificial sobre a sociedade. No texto, o pontífice critica a substituição da atuação humana por sistemas tecnológicos e questiona a concentração de dados nas mãos de gigantes digitais. O documento também condena o transumanismo e reforça a defesa da dignidade humana e da proteção aos grupos mais vulneráveis.

Ao abordar o avanço tecnológico, Leão XIV se posiciona de maneira oposta a alguns dos nomes mais influentes do setor, como Elon Musk, Mark Zuckerberg, OpenAI, Google, Marc Andreessen e Peter Thiel.

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Um dos trechos centrais da encíclica aparece no capítulo 10, em que o papa critica o modelo de negócios adotado por plataformas como Meta e Google, baseado na transformação dos usuários em dados para publicidade.

“Evitemos, portanto, a ‘síndrome de Babel’: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa”, diz no documento.

No primeiro trimestre de 2026, a Meta registrou receita publicitária de US$ 55,02 bilhões, enquanto o Google alcançou US$ 77,25 bilhões.

No capítulo 14, Leão XIV também rebate a lógica do “move fast and break things” (“mova-se rápido e quebre coisas”), lema associado historicamente à Meta e amplamente difundido na indústria tecnológica. A expressão defende a adoção acelerada de inovações, mesmo antes da avaliação completa de seus impactos. O pontífice pede cautela e avaliação dos efeitos sociais e humanos das novas tecnologias.

“Escolhamos a clareza que ilumina e a franqueza que abre caminhos. Não abençoemos entusiasmos ingênuos, não alimentemos medos estéreis. Em vez disso, indiquemos critérios de discernimento – dignidade da pessoa, destinação universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da Casa comum, paz – e transformemo-los em ações: planejamento responsável, avaliações de impacto humano e social, inclusão dos mais frágeis, alfabetização digital, pesquisa e indústria orientadas para a justiça e a paz”, afirma.

Outro ponto abordado no texto é o combate à desinformação. No capítulo 80, a encíclica defende uma ordem digital baseada na proteção dos mais vulneráveis e na supervisão pública do uso de dados e tecnologias.

“Uma ordem social justa na era digital é aquela que garante a todos um acesso equitativo às oportunidades, protege os pequenos e mais frágeis, combate o ódio e a desinformação, submete a utilização dos dados e das tecnologias à inspeção pública, de modo que o critério não seja apenas o lucro, mas a dignidade de cada pessoa e o bem-estar dos povos”.

Em janeiro de 2024, a Meta encerrou seus programas de checagem e moderação de conteúdo, deixando grande parte desse trabalho sob responsabilidade de sistemas de IA. Na ocasião, Mark Zuckerberg afirmou que os verificadores de fatos “destruíram a confiança”.

A encíclica também questiona a ideia, defendida por empresas como Meta e Google, de que a tecnologia seria neutra e as plataformas apenas instrumentos operados pelos usuários. No capítulo 9, o papa escreve:

“A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”.

O documento ainda trata da falta de transparência nos modelos de inteligência artificial e nos dados usados em seus treinamentos. “A subsidiariedade exige que tais processos não sejam impostos a partir de cima, de modo opaco e unilateral, mas que sejam orientados para o bem comum através da transparência, da responsabilidade e de formas concretas de participação”, afirma a encíclica.

Nos últimos anos, o setor de IA passou a restringir o compartilhamento de pesquisas e avanços tecnológicos, transformando descobertas em segredos industriais. A mudança alimentou críticas sobre a falta de transparência das empresas do setor — uma ironia recorrente no mercado é que a companhia de Sam Altman deveria se chamar “ClosedAI”, e não OpenAI.

Em 2023, o governo de Joe Biden publicou uma ordem executiva determinando que desenvolvedores de IA compartilhassem resultados de testes de segurança com o governo antes do lançamento de novos modelos. A medida foi revogada em 2024 pelo governo de Donald Trump, que chegou a discutir novas regras após a Anthropic restringir o modelo Mythos devido a supostos riscos cibernéticos.

‘Transumanismo’ no alvo

Além das críticas à indústria tecnológica, Leão XIV também rebate discursos futuristas associados ao setor. Um dos alvos é o transumanismo, corrente filosófica que defende o uso de tecnologias avançadas — como IA, engenharia genética e nanotecnologia — para superar limitações físicas e biológicas do ser humano.

Um dos principais defensores dessa visão é Elon Musk, que desde a criação da Neuralink, em 2017, sustenta que a sobrevivência da humanidade diante da IA dependerá de uma fusão entre humanos e máquinas. Em 2018, o empresário declarou ao site Axios que o objetivo de longo prazo da companhia era alcançar uma simbiose com a inteligência artificial.

Essa linha de pensamento também é associada a Ray Kurzweil, ligado ao Google, que prevê que, até 2045, cérebros humanos poderão se conectar diretamente à nuvem por meio de nanotecnologia.

No capítulo 55, a encíclica afirma que “o primeiro direito humano é o direito à vida, desde a concepção ao seu fim natural”. Dessa forma, o documento rejeita a ideia de imortalidade tecnológica, argumentando que a morte faz parte da própria condição humana. Em outro trecho, no capítulo 12, o texto alerta:

“Hoje, o desejo de plenitude do ser humano corre o risco de ser desviado para objetivos enganadores: a ilusão duma técnica que promete libertar-nos de toda fragilidade ou modelos de bem-estar que ‘deixam para trás’ povos inteiros”.

Vítimas da tecnologia

O texto papal também confronta ideias defendidas por Marc Andreessen, fundador da a16z, empresa que investiu em companhias como Meta, Airbnb, Lyft, Roblox e Slack.

Em outubro de 2023, Andreessen publicou o documento “The Techno-Optimist Manifesto”, no qual defende a aceleração do desenvolvimento tecnológico e critica conceitos como “sustentabilidade”, “ESG”, “responsabilidade social”, “ética tecnológica” e “gestão de riscos”.

Na encíclica, Leão XIV escreve no capítulo 94: “Se o desenvolvimento tecnológico avança sem uma maturação ética e social adequada, pode acontecer que os meios aumentem sem que a humanidade cresça na mesma medida”.

Enquanto Andreessen critica o que chama de “mentalidade de vítima”, o papa sustenta que os mais vulneráveis devem ocupar posição central nas decisões humanas e sociais. No capítulo 16, o texto afirma: “Os pobres, os doentes, os migrantes e os menores entre nós — todos eles são a pedra angular sobre a qual devemos construir.”

IA como religião

A encíclica também responde aos tons religiosos e antirreligiosos adotados por algumas figuras do setor tecnológico nos últimos anos. Em 2025, por exemplo, Geoffrey Hinton, vencedor do Nobel de Física e considerado um dos “pais” da IA moderna, afirmou que a religião “vai passar por dificuldades se criarmos outros seres”

“Quando começarmos a criar seres capazes de pensar por si mesmos e agir por conta própria, talvez até com corpos, se forem robôs, podemos começar a perceber que somos menos especiais do que pensávamos. E a ideia de que somos muito especiais e fomos criados à imagem de Deus, essa ideia pode ir por água abaixo”, afirmou.

Em resposta, o papa escreveu: “Na era da inteligência artificial, quando a dignidade humana é ameaçada por novas formas de desumanização, é nosso dever urgente permanecer profundamente humanos. Devemos amorosamente salvaguardar a grandeza da humanidade que nos foi conferida e revelada em sua plenitude em Cristo, cujo esplendor nenhuma máquina pode jamais substituir”.

Outro citado no debate é Peter Thiel, fundador do PayPal e investidor do Vale do Silício. Em palestras e entrevistas, Thiel afirmou que “o Anticristo no século XXI não será um cientista maluco, mas sim um autodeclarado protetor que promete paz, segurança e o fim do risco tecnológico”. A retórica utiliza referências bíblicas para criticar propostas regulatórias e iniciativas de governança ética para a IA.

A encíclica se posiciona contra essa visão e afirma, no capítulo 5, que é “necessário adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justiça e de conter os efeitos nocivos do poder tecnológico”. No mesmo trecho, Leão XIV acrescenta: “O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”.

Recentemente, a Palantir, cofundada por Thiel, recebeu críticas após divulgar um manifesto defendendo o uso militar de inteligências artificiais, o fortalecimento da defesa dos Estados Unidos a partir do Vale do Silício e o abandono do pluralismo.

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(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

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