Economia real – A taxa básica de juros (Selic) brasileira em 15% ao ano favorece a renda financeira improdutiva e passiva em detrimento da produção e do emprego. É o que explica o economista Ladislau Dowbor, professor titular da pós-graduação da PUC-SP e ex-consultor de agências da Organização das Nações Unidas, em uma entrevista sobre os rumos da economia brasileira e os efeitos da política de juros altos no mundo do trabalho.
Autor de mais de 45 livros — entre eles Os Desafios da Revolução Digital e Resgatar a Função Social da Economia, premiados pelo Conselho Federal de Economia — Dowbor argumenta que a combinação entre juros elevados, concentração de renda e baixa progressividade tributária ajuda a explicar tanto a estagnação econômica quanto as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores.
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Juros altos e concentração de renda
Segundo o economista, o Brasil produz riqueza suficiente para garantir um padrão de vida mais equilibrado. Ele cita que o PIB de R$ 12,3 trilhões, dividido pela população, resultaria em cerca de R$ 20 mil mensais por família de quatro pessoas. O problema, afirma, está na concentração.
Dowbor exemplifica que um detentor de R$ 1 bilhão aplicado em títulos públicos atrelados à Selic de 15% pode obter mais de R$ 400 mil por dia “sem produzir nada”. Para ele, essa lógica cria um ciclo no qual “quanto mais rico, mais dinheiro aplicado, maior o enriquecimento”, enquanto a maioria da população enfrenta dificuldades para fechar o mês.
“O problema deles não é ‘o que que eu faço com o meu dinheiro?’. O que ganham nem dá para fechar o mês”, resume.
Na avaliação do professor, quando grandes fortunas optam por aplicações financeiras em vez de investimentos produtivos, a economia perde dinamismo, reduz a geração de empregos e enfraquece o poder de compra das famílias — o que impacta diretamente trabalhadores formais e informais.
Crédito caro e impacto no emprego
Dowbor também destaca o custo do crédito. Ele compara os juros cobrados no Brasil — 25% ao ano para empresas e até 58% para famílias — com taxas significativamente menores em países como China e nações europeias.
Com crédito elevado, afirma, o empresário que pretende ampliar um negócio enfrenta maior risco de endividamento. Ao mesmo tempo, a aplicação em títulos públicos oferece retorno elevado e seguro.
“Ganha-se muito mais dinheiro através de processos financeiros do que produtivos”, diz.
Papel do Estado e políticas públicas
Crítico do atual arcabouço fiscal, Dowbor defende que investimentos públicos em saúde, educação e infraestrutura não devem ser tratados apenas como gasto, mas como parte do “salário indireto” das famílias.
“É bem-estar econômico construído através de políticas públicas, que envolvem tanto políticas sociais quanto infraestrutura. A melhora da situação das famílias libera dinheiro para a outra parte do bem-estar econômico: fazer compras, pagar serviços, aluguel etc.”, afirma.
Para ele, quando o Estado investe em políticas sociais, amplia a renda disponível das famílias, fortalece o consumo e estimula a atividade econômica — criando um ciclo que beneficia empresas e trabalhadores.
O economista cita estudos realizados no âmbito da ONU indicando que cada R$ 1 investido em saneamento pode gerar economia de R$ 4 em saúde. Na sua leitura, esse efeito multiplicador contribui para o desenvolvimento e para a geração de empregos.
Ele também defende políticas de inclusão produtiva, como transferências de renda, argumentando que esses recursos retornam à economia via consumo e arrecadação tributária.
Tributação e desigualdade
Outro ponto central é o modelo tributário brasileiro. Dowbor critica o peso elevado dos impostos sobre o consumo, que recai proporcionalmente mais sobre a base da população.
“Quase tudo da renda dos 80% da base da população é voltado para o consumo, são essas pessoas que pagam imposto. Quanto ao rico, quantas bistecas ele consegue comer por dia, quantas camas ele precisa para dormir? Ele atende todas as suas necessidades e ainda conta com 90% da renda disponível. Entende? O impacto relativo do imposto sobre o consumo é essencialmente sobre a massa da população”, afirma.
Ele lembra que, desde 1995, lucros e dividendos são isentos de imposto de renda no país, o que, segundo ele, amplia a desigualdade tributária. Para o economista, uma revisão desse modelo poderia ampliar a capacidade de investimento público sem penalizar trabalhadores.
“Dreno financeiro”
Dowbor utiliza a expressão “dreno financeiro” para descrever o conjunto de fatores que, em sua visão, retiram recursos da economia produtiva. Ele estima que pagamentos de juros da dívida pública, endividamento das famílias, juros empresariais elevados, evasão fiscal e renúncias fiscais somariam cerca de 30% do PIB.
Na sua avaliação, parte desses recursos poderia ser direcionada a infraestrutura, educação e políticas industriais, com potencial de geração de emprego e fortalecimento do mercado interno.
A falta de investimento consistente em educação também aparece como entrave estrutural. Dowbor aponta que 21% dos brasileiros possuem ensino superior, frente a 62% no Canadá. Para ele, esse desequilíbrio limita a produtividade e restringe oportunidades de trabalho qualificado.
“É um desequilíbrio estrutural que demanda décadas, gerações para ser corrigido”, afirma.
Ao comparar modelos internacionais, como o chinês, Dowbor destaca o papel do Estado como indutor de investimentos produtivos. Ele diferencia investimento produtivo de aplicação financeira especulativa e defende maior alinhamento entre políticas públicas, geração de emprego e desenvolvimento social.
(Com informações de Folha de S. Paulo)
(Foto: Reprodução/Freepik/gustavomellossa)