Uso de IA – A ferramenta interna de inteligência artificial MeshClaw, criada pela Amazon para aumentar a produtividade e incentivar o uso diário de IA entre desenvolvedores, passou a produzir um efeito inesperado dentro da companhia. Em vez de otimizar processos relevantes, parte dos funcionários começou a executar tarefas sem importância apenas para elevar os indicadores internos ligados ao uso da tecnologia.
O sistema atua como um agente de IA integrado ao ecossistema corporativo da empresa. Entre as funções oferecidas estão a organização de caixas de e-mail, automação de fluxos de desenvolvimento de software e integração com plataformas como o Slack, usado para comunicação entre equipes. Internamente, a estratégia recebeu o nome de tokenmaxxing, expressão usada para descrever a maximização do consumo de tokens — unidades que medem o processamento de modelos de IA generativa.
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De acordo com reportagem do jornal Financial Times, a Amazon passou a divulgar o uso dessas ferramentas em painéis internos acessíveis a gestores. Além disso, a empresa determinou que pelo menos 80% dos desenvolvedores utilizassem recursos de IA semanalmente. A exposição pública dos dados acabou alimentando uma competição informal entre equipes e incentivando trabalhadores a inflar artificialmente os números de utilização.
“A pressão para usar essas ferramentas é enorme. Tem gente usando o MeshClaw só para fazer o número subir”, afirmou um funcionário ouvido pelo FT. Outro trabalhador relatou que o monitoramento constante criou “incentivos perversos”, sobretudo em equipes mais competitivas.
Adoção de IA vira critério de promoção
O caso não é isolado dentro da empresa. Em novembro do ano passado, Jamie Siminoff, vice-presidente de produto da Amazon e fundador da startup Ring, declarou que o uso de inteligência artificial passaria a influenciar promoções internas. “Vamos promover com base em como você está integrando IA ao seu trabalho”, afirmou o executivo. Quando um indicador passa a definir avanço profissional, ele deixa de medir apenas eficiência e passa também a moldar comportamento.
O MeshClaw foi inspirado no OpenClaw, ferramenta que ganhou notoriedade ao permitir que usuários executassem agentes de IA diretamente em seus computadores.
A versão desenvolvida pela Amazon, porém, possui capacidades mais avançadas, incluindo implantação de código. Em um memorando interno obtido pelo FT, a companhia descreveu o sistema em tom entusiasmado, afirmando que ele “sonha durante a noite para consolidar o que aprendeu” e “monitora seus processos enquanto você está em reunião”.
A Amazon não é a única empresa do setor enfrentando esse tipo de distorção. Na Meta, funcionários passaram a competir internamente para descobrir quem conseguia gerar mais tokens no menor tempo possível. No início de abril, mais de 60 trilhões de tokens foram produzidos em uma disputa chamada Claudeonomics, criada para estimular o engajamento dos trabalhadores.
Com a expansão dessa lógica, empresas do Vale do Silício tentam incentivar funcionários a se especializarem cada vez mais na geração de tokens. Andrew Bosworth, CTO da Meta, afirmou publicamente em fevereiro que engenheiros seniores deveriam gastar em tokens de IA valores equivalentes aos próprios salários.
A mesma visão é compartilhada por Jensen Huang, CEO da Nvidia. O executivo declarou que ficaria decepcionado caso um engenheiro com remuneração anual de US$ 500 mil não fosse capaz de consumir pelo menos metade desse valor em tokens de inteligência artificial.
(Com informações de Exame)
(Foto: Reprodução/Magnific)